Ter casa em Portugal? Um sonho cada vez mais distante

Com os preços da habitação a subir muito acima do salário médio, Portugal vive uma crise que expulsa jovens e famílias do país. Entre a falta de mão-de-obra na construção, a lentidão dos processos urbanísticos e a pressão imobiliária, especialistas alertam para um sistema bloqueado que já não responde às necessidades do país.

Jéssica Silva, 34 anos, esteve à procura de casa durante quase dois anos e diz que “foi uma experiência bastante frustrante” e viu “muitas casas em condições horríveis com um valor estupidamente alto”. Também acrescenta que considerou mudar-se para o norte do país por não arranjar solução em Lisboa. Esta é a realidade de milhares de habitantes em Portugal. 

Segundo os dados da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), no terceiro trimestre de 2024 o índice de acessibilidade habitacional atingiu 157,7 pontos, o mais elevado desde que há registos. Portugal tornou-se, assim, o país onde é mais difícil comprar casa entre os 30 países avaliados, estando cerca de 36 % acima da média da organização e 50 % acima da média da zona Euro. Nos últimos dez anos, os preços das casas subiram para mais do dobro, com um acréscimo de 135,2 %, e os rendimentos médios subiram apenas 33 %, de acordo com o INE, criando um desfasamento entre valor dos imóveis e capacidade de compra da maioria das famílias. 

Mais de metade das casas custam mais 33% desde 2023


Embora mais acentuada nas áreas metropolitanas e no litoral, a crise afeta todo o território. A pressão demográfica, a concentração da procura e a ausência de habitação com preços acessíveis, empurram jovens e famílias de rendimentos baixos para fora dos centros urbanos, aprofundando a desigualdade. Este problema já não é apenas sectorial, mas sim da economia portuguesa.

Entre os fatores que explicam este problema, a falta de mão-de-obra qualificada na construção é dos mais relevantes. O Falta Casas falou com Ricardo Silva, construtor civil e CEO do Grupo Atitude Diagonal de Construções, e o mesmo reconhece que “a falta de mão-de-obra está descontrolada, e construir habitação a um preço acessível de momento já não é possível, é meramente um sonho”. Também explica que o tempo de aprovação de projetos “continua a ser um problema” e que é crucial “cativar os jovens para virem para o setor de construção e criar melhores condições para que isso aconteça”. 

Ricardo Silva

No mercado imobiliário também se notam dificuldades. Patrícia Lucas, agente imobiliária na REMAX, afirma que “os valores de venda continuam altos e não registamos tendência para descer” e que “em zonas turísticas os valores de venda são obscenos”. Patrícia defende que é necessário “fixar rendas com valores razoáveis”, reforçar apoios para jovens, e que “enquanto o estado proteger os inquilinos mais do que os arrendatários, o mercado de arrendamento continuará a ser um problema”. 

Patrícia Lucas

Para enfrentar a crise, os especialistas e o Governo propõem um conjunto de soluções que passam pelo aumento da oferta de habitação, através de construção nova e reabilitação de imóveis devolutos ou subutilizados. Estas iniciativas apoiadas por programas como o Construir Portugal, preveem disponibilizar 25.000 habitações e incentivos fiscais como a redução do IVA para 6% em construções ou reabilitações de habitação social ou arrendamento acessível. Outra solução é aproveitar imóveis vazios ou degradados, com o objetivo de aumentar a oferta de habitação acessível sem depender de construção nova. A regulação de rendas e do alojamento local é recomendada para conter especulação e preservar oferta para residentes, embora deva ser cuidadosamente equilibrada para não desincentivar investimento. Por fim, uma estratégia nacional coordenada de longo prazo, articulando políticas de construção, reabilitação, arrendamento, solos urbanos e incentivos financeiros, é essencial.

Sem uma estratégia nacional consistente, capaz de articular construção, reabilitação, regulação e apoio às famílias, a desigualdade no acesso a casa continuará a acentuar-se. Ou Portugal transforma a habitação numa prioridade real e duradoura, ou continuará a afastar cidadãos das suas cidades, e, no limite, do próprio país.

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“A habitação não deve ser apenas um teto, mas uma forma de criar comunidades.”

A crise da habitação em Portugal continua a piorar, marcada por salários baixos, desigualdades e falta de políticas estruturais. Em entrevista, a economista Sónia Jorge defende que o país precisa de respostas duradouras e modelos comunitários inspirados em boas práticas para garantir habitação digna e sustentável.

P: Que fatores económicos considera determinantes para o aumento dos preços da habitação em Portugal?

R: Portugal tem-se desenvolvido rapidamente, mas esse desenvolvimento não foi equitativo. Embora existam novas oportunidades, não são distribuídas de forma justa, criando desequilíbrios que se refletem na habitação. Grande parte da população vive com salários baixos e a classe média é pequena, o que desequilibra a oferta e a procura. Tanto os arrendamentos como a compra de casa estão mais complicados, e o número de pessoas com salários baixos continua a aumentar.

P: Estudos indicam que os fatores principais para esta crise é o investimento estrangeiro e o turismo. Concorda?

R: Não. Qualquer economia precisa de políticas públicas para tratar destas situações. Se Portugal não tem políticas que abordem estas problemáticas, não consegue lidar com os desequilíbrios, que não vêm apenas do investimento estrangeiro. O turismo e o investimento são bons para a economia, e não deveriam afetar tanto a habitação. O país tem de estar preparado, criando habitação acessível para arrendamento e compra, com subsídios quando necessário. Este impacto externo tem de ser compensado por política pública, caso contrário, o governo não resolve a crise.

P: Quais são as soluções que Portugal poderia adotar?

R: Há muitos projetos que mostram que a habitação não deve ser apenas um teto, mas uma forma de criar comunidades e apoio social, económico e cultural. Vejo políticas e centros habitacionais em regiões que Portugal nem sempre observa, com exemplos que incluem melhorar não só o stock habitacional, mas também os espaços à volta. É essencial criar comunidades integradas para gerar apoio e uma sociedade mais saudável.

Ouve a entrevista:

Por que temos uma crise na habitação e não se constroem mais casas? Eis algumas respostas para estas e outras questões.

  1. Portugal está a passar por uma crise de habitação?

Sim, Portugal está a passar por uma crise de habitação. Segundo um relatório da Comissão Europeia, Portugal tem as casas mais sobrevalorizadas da Europa por cerca de 35%, e é o país onde as famílias mais passam por dificuldades na compra de casa.

  1. Por que existe a crise?

A falta de casas é um dos motivos da crise, mas também é importante mencionar as casas que não estão habitadas. Segundo um estudo feito pelo Instituto da Habitação e Reabilitação Urbana, Portugal tem 723mil habitações vazias e 485mil dessas estão em condições para serem habitadas, mas apenas metade estão no mercado. 

  1. Por que não se constroem mais casas?

Um dos problemas que impedem a construção de mais casas é o licenciamento de construção que, segundo o Decreto-Lei n.º 10/2024, de 8 de janeiro, demora de 120 a 200 dias, mas, muitas vezes esses prazos não são cumpridos e demoram mais. Segundo o Sindicato da Construção de Portugal, também existe falta de mão de obra qualificada no setor da construção.

  1. Os jovens conseguem comprar/arrendar casa?

Apesar de algumas medidas para ajudar os jovens, como o crédito de habitação para jovens, continua a ser difícil comprarem ou arrendarem casa. Segundo o INE, em Portugal, no primeiro trimestre de 2025, o preço médio de mais de 40mil alojamentos familiares transacionados foi de 1 951 €/m 2, ou seja, o ordenado mínimo em Portugal não chega para manter uma casa e as despesas que a mesma gera. 

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